Por Luiz Carlos Fernandes*

Embora seja um fenômeno capaz de revelar pistas sobre identidade de gênero, sexualidade, posicionamento político, regionalidade e classe social, a moda curiosamente não é questionada na mesma proporção em que influencia nossa identidade e como somos vistos em sociedade.
Mais do que vestuário, desfiles e capas de revistas, a moda movimenta todo um sistema que materializa formas de pensar e ver o mundo, abrigando novas narrativas. Ao mesmo tempo em que faz parte da realidade em que vivemos, também auxilia nessa constituição, tornando-se um espelho da realidade de um determinado tempo, como aponta Lipovetsky (2009).
O termo “moda” é derivado do latim – modus, “modo” ou “maneira de agir” –, mas, para além desse sentido “primário”, a moda configura-se como um sistema em constante mudança, capaz de evocar símbolos e contextos culturais dependendo de como é instrumentalizada. Ou seja, “roupa é também linguagem; por isso, aquele que domina melhor os códigos se comunica melhor” (Cotta; Farage, 2021, p. 90).
Exemplo disso é um fato ocorrido em março de 2007, quando o jornal Folha de S.Paulo estampava em suas manchetes e capas: “Ministra inova ao usar calça comprida em sessão plenária do órgão” (Folha de S.Paulo, 2007). A notícia referia-se à ministra Cármen Lúcia Antunes Rocha, segunda mulher a ocupar um assento no Supremo Tribunal Federal (STF), que, ao comparecer de calça ao plenário, rompeu com uma tradição visual marcada pela rigidez nas normas de vestimenta. Como resgata Gamba (2024), em 1997, o Senado passou a aceitar que mulheres usassem calças no plenário e em outros espaços da Casa; já nos anos 2000, o STF passa a aceitar o uso de calças compridas para mulheres – no entanto, com a obrigatoriedade do uso de blazer. Porém, foi somente em 2007 que a ministra Cármen Lúcia usou calças em sessão, tornando-se a primeira ministra a usar a vestimenta no plenário do STF.
Curiosamente, sete anos antes, após mobilização de servidoras, o uso de calças já havia sido autorizado para deputadas, senadoras, advogadas, jornalistas e demais mulheres que desejassem assistir às sessões plenárias do Congresso Nacional.1 Isso demonstra como, a depender do gênero de quem veste, a moda e seus elementos tencionam representações de poder e seguem sendo utilizados como “tecnologia de gênero” (Lauretis, 1987), articulando aspectos culturais, estéticos e sociais que dialogam com as transformações históricas de cada época, ao indicar maneiras de ser e de se vestir e, consequentemente, de exercer controle sobre o corpo feminino.
O que nos leva a perceber um ponto interessante: a rara aplicação de normas de vestuário aos corpos masculinos. Enquanto os homens desfrutam de maior liberdade para escolher suas vestimentas em situações formais ou informais, as mulheres sofrem vigilância estética de todas as maneiras – comprimento e largura das roupas são fiscalizadas; penteado e maquiagem podem ser vistos como “inadequados” para uma determinada função; seus corpos precisam estar sempre “apresentáveis”.
Nesse cenário, para além dos corredores do STF, ao articularmos o sistema da moda à emergência de figuras que se sobressaem em diferentes setores da sociedade, especialmente figuras femininas, percebe-se que a moda muitas vezes é instrumentalizada, tanto para tensionar padrões quanto para reforçar estruturas sociais.
Como exemplo, destaca-se a mensagem implícita no traje das primeiras-damas, especialmente em cerimônias de posse, nas quais a moda opera como ferramenta de comunicação simbólica, refletindo os aspectos da personalidade dessas mulheres e o estilo político do governo que virá a seguir. De modo semelhante, a moda também pode assumir caráter de ação política na emergência de identidades dissidentes, como na trajetória da deputada federal Erika Hilton. Primeira mulher trans negra a ocupar cargo eletivo no Congresso brasileiro, pode-se notar a articulação entre moda e política no seu mandato, levando-a a estampar capas das maiores revistas de moda publicadas no país.
No livro Tecnologias vestíveis: memória e intimidade sobre o corpo, do catálogo da Editora UEMG, ao investigar as interações entre corpo, roupas e tecnologias vestíveis, a pesquisadora Thatiane Mendes Duque (2023) apresenta o conceito de vestimentas enquanto segunda pele. Segundo a autora, “a roupa torna-se o casulo, a cápsula, a pele envolvente e necessária para que o corpo seja capaz de modificar-se a cada dia, construindo narrativas, guardando memórias e revelando histórias" (Duque, 2023, p. 131).
Em outros termos, a roupa que cada corpo veste revela muito mais sobre as dinâmicas sociais e culturais que o cercam do que apenas sua função de cobrir o corpo, como indicam Cotta e Farage (2021). Refletir sobre essa relação entre moda e sociedade configura-se, portanto, como um exercício de negociação entre as normas sociais que determinam o que pode ou deve ser vestido em determinados espaços, permitindo observar expectativas de gênero e padrões mobilizados por meio da moda.
Em outra obra do catálogo da Editora, Economia Criativa: práticas para inovação e desenvolvimento (2019), organizada por Rosângela Míriam L. O. Mendonça e Márcia Câmara Bandeira de Figueiredo, no terceiro capítulo, intitulado “O Design Industrial, Moda, Sociedade e os Produtos Industrializados versus Consumo”, Heloísa Nazaré dos Santos conceitua o design e aprofunda o debate sobre moda e sociedade. A autora traça um paralelo que oferece uma rica revisão do conceito de moda e suas implicações no mundo em que vivemos.
Se você gostou do tema e gostaria de se aprofundar mais, o catálogo da Editora UEMG está repleto de obras que debatem o campo do design, das artes e da moda sob diversas perspectivas – desde reflexões teóricas e discussão de elementos técnicos até análises sobre os atravessamentos sociais.
Confira agora mesmo no catálogo: editora.uemg.br/catalogo.
Referências
COTTA, Mayra; FARAGE, Thais. Mulher, Roupa, trabalho: como se veste a desigualdade de gênero. 1 ed. São Paulo: Paralela, 2021.
DUQUE, Thatiane Mendes. Tecnologias vestíveis: memória e intimidade sobre o corpo. Belo Horizonte: EdUEMG, 2023. Disponível em: https://editora.uemg.br/component/k2/item/258-tecnologias-vestiveis. Acesso em: 6 maio 2026.
FOLHA DE S.PAULO. Ministra do STF inova ao usar calça comprida em sessão plenária do órgão. Folha de S.Paulo, São Paulo, 16 mar. 2007. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u90359.shtml. Acesso em: 6 maio 2026.
GAMBA, Karla. Do Congresso ao STF: o dress code machista nos poderes em Brasília. Agência Pública, 27 maio 2024. Disponível em: https://apublica.org/2024/05/do-congresso-ao-stf-o-dress-code-machista-nos-poderes-em-brasilia/. Acesso em: 7 abr. 2026.
SANTOS, Heloísa Nazaré dos. O design industrial, moda, sociedade e os produtos industrializados versus consumo. In: MENDONÇA, Rosângela Míriam L. O.; FIGUEIREDO, Márcia Câmara Bandeira de. Economia criativa: práticas para inovação e desenvolvimento. Belo Horizonte: Editora UEMG, 2019. p. 48-73. Disponível em: https://editora.uemg.br/images/livros-pdf/catalogo-2019/Economia/2019_Economia_criativa_cap3.pdf. Acesso em: 11 maio 2026.
LAURETIS, Teresa de. A tecnologia do gênero. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). Tendências e impasses: o feminismo como crítica da cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 206-242.
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução de Maria Lúcia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 352 p.
* Luiz Carlos Fernandes é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e mestre em Comunicação Midiática pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC Minas. Atualmente, é bolsista Fapemig, atuando como comunicólogo na equipe da EdUEMG.


