Por Abraão Filipe Oliveira*

A pós-graduação em nosso país tem vivenciado grandes transformações desde sua criação. Ações afirmativas, internacionalização, diversificação das áreas de conhecimento e ampliação dos recursos públicos marcam mudanças significativas nesse campo. Além disso, os periódicos acadêmicos passaram a desempenhar um papel cada vez mais relevante na atividade científica brasileira – e, atualmente, a forma como essa contribuição é compreendida também está em mutação.
Na linha do tempo, os registros apontam que a pós-graduação no Brasil teve início na década de 1930, sob influência dos modelos europeus (Martins, 2021). Na época, a estrutura do ensino superior também dava seus primeiros passos, fortemente inspirada nas universidades estadunidenses (Lampert, 1998). Entre 1945 e 1970, ocorreu um expressivo aumento no número de ingressantes no ensino superior, de forma que muitas faculdades foram federalizadas e/ou alçadas à categoria de universidades (Lampert, 1998).
Em 1951, durante o governo Vargas, foi criada a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), a partir do trabalho de Anísio Teixeira, que foi um de seus primeiros diretores. A entidade, vinculada ao Ministério da Educação, possui relação direta com o início da oferta da pós-graduação stricto sensu no país e, à época, junto com a publicação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei nº 4.024/1961 –, exerceu uma importante função no processo de ampliação e fortalecimento do ensino superior brasileiro (Piotto; Calabró, 2021).
Contudo, um marco fundamental para a institucionalização da modalidade stricto sensu da pós-graduação no país foi o documento solicitado pelo Ministério da Educação e Cultura, durante o período da ditadura militar, ao Conselho Federal de Educação, que culminou no Parecer nº 977 de 1965 (Martins, 2021; Lampert, 1998; Piotto; Calabró, 2021). O relatório foi redigido, em dezembro de 1965, pelo pesquisador Newton Sucupira, a partir de suas vivências nos Estados Unidos e em países da Europa. Em suma, o Parecer nº 977 formalizou as diretrizes para os cursos de pós-graduação e para a associação entre ensino e pesquisa no âmbito das universidades brasileiras, organizando seus regimes burocráticos de funcionamento. O professor, inclusive, dá nome à base de dados da Capes que, desde 2014, agrega informações do Sistema Nacional de Pós-Graduação: a Plataforma Sucupira.
A partir daí, novos programas de mestrado e doutorado foram sendo inaugurados em todos os estados do Brasil. Segundo dados do Ministério da Educação, em 2023 o país contava com 6.979 cursos de pós-graduação, com 360.648 pessoas matriculadas (Pós-graduação, 2024). Ressalta-se ainda que, concomitantemente a esse crescimento na oferta de cursos, a partir da década de 2010, houve a ampliação das políticas de cotas, tanto na graduação quanto na pós-graduação (neste caso, mais especificamente, após 2016, com a Portaria Normativa n.º 13 do Ministério da Educação). Esse processo resultou em um aumento na pluralidade e diversificação dos perfis de discentes e de docentes no ensino superior (Barreto, 2025), o que também pode ser percebido na produção científica publicada nos periódicos acadêmicos, com implicações importantes para a produção da ciência brasileira nas mais diversas áreas do conhecimento.
Historicamente, os periódicos desempenham um papel estratégico na produção e avanço do conhecimento científico. Os trabalhos divulgados tornam públicos achados de pesquisas, revisões de literatura, resultados parciais ou finais de investigações, novas metodologias testadas, reflexões construídas por projetos colaborativos ou grupos de pesquisa, entre outras possibilidades de diálogos acadêmicos. Dessa forma, um país que pretende constituir uma “ciência qualificada” precisa de um sistema robusto de periódicos acadêmicos que favoreça o intercâmbio de conhecimento entre diferentes instituições e pessoas pesquisadoras, garantindo que a comunicação científica se dê da forma mais frutífera possível em prol do desenvolvimento científico e tecnológico.
Nesse contexto, é interessante observar como a formação de pesquisadores(as) no país e o sistema de produção científica passaram por transformações, tanto em sua estrutura como em seu alcance, acompanhando mudanças políticas e sociais. Conforme apontam trabalhos como o de Lidiane Cesário Barreto (2025), a presença de mais pessoas negras, indígenas, quilombolas e com deficiência na academia, por meio de políticas de ações afirmativas, vem provocando revoluções. Ao “mapear as produções científicas agenciadas por cotistas negros e negras nos programas de pós-graduação e como essas produções se relacionam com as temáticas raciais e/ou de gênero” (Barreto, 2025, p. 112), a pesquisadora identificou que os trabalhos desses(as) estudantes cotistas, de múltiplas formas, tocam em questões de raça e/ou de gênero historicamente silenciadas no cotidiano social e no ambiente acadêmico, de forma que “estudantes negros/as ocupam um lugar fundamental na reestruturação dos saberes e na demarcação de agências epistêmicas, produzindo conhecimento que não apenas explica o mundo, mas também busca transformá-lo” (Barreto, 2025, p. 112). Essa mudança estrutural vai desaguar, consequentemente, nos temas de publicação, nas configurações do campo editorial científico e na forma como os periódicos produzem e legitimam o conhecimento.
Assim, as revistas colaboram para a consolidação da pós-graduação, atuando como veículos de registro, difusão e validação do conhecimento produzido – desde publicações impressas de circulação restrita até plataformas digitais de acesso aberto, como é o caso do Portal de Periódicos da UEMG.
Conforme discutido em live transmitida no primeiro semestre deste ano, o sistema de avaliação dos textos publicados nos periódicos acadêmicos do Brasil, o Qualis Periódicos, está passando por mudanças a fim de priorizar o artigo em relação à revista e de ampliar o alcance da produção científica e a internacionalização das áreas de conhecimento. Nesse sentido, os periódicos vêm se aprimorando em formatos e práticas editoriais, respondendo às demandas de visibilidade, indexação e impacto.
Portanto, seis décadas depois do Parecer nº 977 – peça importante para a institucionalização formal da pós-graduação stricto sensu no Brasil – é possível reconhecer que o sistema alcançou avanços notáveis. Mesmo diante dos desafios enfrentados, relacionados ao financiamento, à garantia da qualidade acadêmica e aos fluxos de monitoramento e avaliação, é pertinente pensarmos como a pós-graduação, o ensino superior e as bases da comunicação científica brasileira refletem os avanços sociais, institucionais e tecnológicos e devem continuar assim em permanente reinvenção, com vistas a seguir contribuindo com a divulgação do conhecimento acadêmico em benefício da sociedade.
Referências
BARRETO, Lidiane Cesário. Trilhando caminhos: presenças e agências negras nos programas de pós-graduação da Universidade Federal de Viçosa-MG. 2025. 137 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Federal de Viçosa, Viçosa, 2025.
LAMPERT, Ernâni. A pós-graduação: retrospectiva histórica e perspectivas. História da Educação, v. 2, n. 4, p. 77-86, 1998. Disponível aqui. Acesso em: 4 nov. 2025.
MARTINS, Daiane. #3 Blog LAPEI - O Desenvolvimento da Pós-Graduação no Brasil e o Crescimento das Linhas de Empreendedorismo. Portal UFG, Goiânia, 8 set. 2021. Disponível aqui. Acesso em: 4 nov. 2025.
PIOTTO, Hayslla Boaventura; CALABRÓ, Luciana. Educação médica: linha do tempo e panorama da pós-graduação stricto sensu no Brasil. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 45, n. 1, p. e041, 2021.
PÓS-GRADUAÇÃO stricto sensu tem mais de 350 mil matriculados. Ministério da Educação, [s. l.], 9 mai. 2024. Disponível aqui. Acesso em: 4 nov. 2025.
*Abraão Filipe Oliveira é bacharel em Comunicação Social/Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente, é bolsista Fapemig, atuando como comunicólogo na equipe da Editora UEMG.


