EdUEMG

A necessidade da reflexão crítica na prática docente e suas consequências em Monster (2023)

Por Gislaine Moreira de Souza* e Caroliny Procopio Lima**

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É indiscutível que compreender um acontecimento em sua totalidade – isto é, sem vieses de confirmação – raramente consiste em apenas observá-lo. Em muitos casos, aquilo que parece evidente à primeira vista revela-se mais complexo quando analisado sob outros pontos de vista. Essa dificuldade de interpretar pessoas, comportamentos e relações está presente em diferentes contextos sociais e manifesta-se de forma ainda mais peculiar no ambiente escolar, onde professores, estudantes e demais profissionais convivem com situações que podem assumir significados diversos a depender da perspectiva adotada. As diferentes formas de compreender um mesmo fato e os desafios decorrentes dessas interpretações constituem temas recorrentes tanto nos estudos sobre educação quanto em obras que se dedicam a representar a complexidade das relações humanas.

O filme Monster (2023), dirigido por Hirokazu Kore-eda, dialoga diretamente com essa questão ao apresentar uma narrativa construída a partir de múltiplas perspectivas sobre um mesmo conjunto de acontecimentos. A obra acompanha o conflito envolvendo Minato Mugino, sua mãe, um professor e a administração escolar, revelando gradualmente como diferentes interpretações podem ser formuladas a partir de informações parciais. À medida que novos elementos são apresentados, explicações anteriores consideradas plausíveis passam a ser questionadas, evidenciando a complexidade das relações humanas e os limites de uma compreensão baseada em um único ponto de vista.

A importância da reflexão crítica na docência é discutida em Reflexão e docência: um diálogo entre Dewey, Freire e Schön (Cañete, 2018), terceiro capítulo do livro Docência: formação, trabalho, vivências (Bovo et al., 2018), publicado pela Editora UEMG. No texto, a autora apresenta as definições do conceito elaboradas pelos três teóricos, que compartilham o entendimento de que refletir criticamente consiste em analisar a própria prática. Parte-se do pressuposto de que é natural para o ser humano revisitar mentalmente eventos passados em busca de atribuir-lhes novos significados. Tal reflexão, entretanto, diferencia-se por exigir maior rigor nesse processo, dedicando-se a examinar a conduta de forma sistemática. Para isso, pode recorrer à pesquisa, à coleta de dados e à revisão de evidências, ou mesmo à reconsideração das informações já disponíveis sob novas perspectivas, buscando reduzir vieses e alcançar interpretações mais consistentes (Cañete, 2018).

Embora os três autores apresentem concepções distintas, todos convergem para a compreensão de que a análise cuidadosa da prática constitui parte fundamental do desenvolvimento profissional. A disposição para questionar interpretações iniciais, considerar diferentes perspectivas e revisar conclusões diante de novas evidências aparece, sob formas variadas, nas propostas de Dewey, Freire e Schön. Essas questões tornam-se particularmente relevantes em contextos educacionais, nos quais decisões frequentemente precisam ser tomadas em meio a situações complexas e informações incompletas.

Essa discussão encontra eco nos acontecimentos relatados em Monster (2023). Ao longo da narrativa, diferentes personagens buscam compreender o conflito envolvendo Minato a partir dos elementos que possuem à disposição. No entanto, à medida que novas perspectivas são apresentadas, torna-se evidente que nenhuma dessas interpretações é capaz de explicar integralmente os fatos quando considerada de forma isolada. O filme evidencia, assim, como percepções parciais podem influenciar julgamentos e como a compreensão de uma situação pode ser transformada quando novos elementos são incorporados à análise.

Nesse contexto, a experiência do professor Michitoshi Hori merece atenção não por representar um caso isolado de falha profissional, mas por ilustrar desafios recorrentes da docência. Ao interpretar determinados comportamentos de Minato como sinais de agressividade contra outro estudante, o professor passa a observar os acontecimentos a partir dessa hipótese inicial. Sob a perspectiva de Dewey, percebe-se que essa impressão não é submetida a um processo suficientemente rigoroso de investigação e verificação. À luz de Freire, observa-se também uma limitação do diálogo, elemento fundamental para a compreensão dos sujeitos envolvidos em uma situação educativa. Já a partir das contribuições de Schön, é possível argumentar que a constante revisão das próprias interpretações poderia ter favorecido uma leitura mais abrangente dos acontecimentos. 

Entretanto, reduzir a problemática apresentada pelo filme aos equívocos de Hori significaria ignorar uma das principais contribuições da obra. O que Monster (2023) evidencia é a dificuldade de compreender plenamente acontecimentos que envolvem múltiplos sujeitos e perspectivas. A narrativa sugere que interpretações aparentemente sólidas podem revelar-se insuficientes quando confrontadas com novas informações, destacando a importância de manter aberta a possibilidade de revisão dos próprios julgamentos. Dessa forma, o filme não trata apenas dos desafios enfrentados por um professor, mas da complexidade inerente às relações humanas e aos processos de construção de sentido.

Diante do exposto, pode-se concluir que o diálogo entre Monster (2023) e o capítulo Reflexão e docência: um diálogo entre Dewey, Freire e Schön (Cañete, 2018) permite compreender a relevância da reflexão crítica para a prática pedagógica. As contribuições dos três autores oferecem ferramentas para pensar a atuação profissional em contextos marcados pela incerteza, pela multiplicidade de perspectivas e pela necessidade constante de interpretar acontecimentos complexos. Ao mesmo tempo, a obra cinematográfica demonstra como a compreensão de uma situação pode ser ampliada quando diferentes pontos de vista são considerados. Assim, a postura ideal aqui analisada além de se apresentar como um recurso para o aprimoramento da docência, também auxilia na forma de lidar com a complexidade das relações que constituem o cotidiano escolar.

A obra completa pode ser acessada pelo link: https://editora.uemg.br/component/k2/item/16-docencia-formacao-trabalho-vivencias.

 

Referências:

BOVO, Ana Paula Martins Corrêa; COSTA, Fernanda de Jesus; CAÑETE, Lílian Sípole Carneiro; DOROTÉIO, Patrícia Karla Soares Santos. Docência: formação, trabalho, vivências. Belo Horizonte: Editora UEMG, 2018. E-book. Disponível em: https://editora.uemg.br/component/k2/item/16-docencia-formacao-trabalho-vivencias. Acesso em: 9 jun. 2026.

CAÑETE, Lílian Sípole Carneiro. Reflexão e docência: um diálogo entre Dewey, Freire e Schön. In: BOVO, Ana Paula Martins Corrêa; COSTA, Fernanda de Jesus; CAÑETE, Lílian Sípole Carneiro; DOROTÉIO, Patrícia Karla Soares Santos (org.). Docência: formação, trabalho, vivências. Belo Horizonte: Editora UEMG, 2018. E-book. Disponível em: https://editora.uemg.br/component/k2/item/16-docencia-formacao-trabalho-vivencias. Acesso em: 9 jun. 2026.

MONSTER. Direção: Kore-eda Hirokazu. Produção: Minami Ichikawa; Ryo Ota; Kiyoshi Taguchi; Hajime Ushioda; Kenji Yamada; Tatsumi Yoda. Roteiro: Sakamoto Yuji. Japão: Gaga; Toho Co., Ltd; Fuji Television Network; AOI Pro; Bun-Buku, 2023. 1 DVD (125 min).

 

* Gislaine Moreira de Souza é estagiária de revisão na Editora UEMG e estudante de Letras, habilitação em inglês, na Universidade Federal de Minas Gerais.

** Caroliny Procopio Lima é estudante de Letras, com dupla habilitação em Português e Francês, na Universidade Federal de Minas Gerais e atualmente é estagiária de revisão na EdUEMG.

  

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